Seu Peu, homenzarrão, corpanzil, eram peças de músculos que se distribuíam salientes pelos seu corpo; a musculatura corporal dava impressão de se está diante de um lutador de MMA, braços fortes, dedos grossos, mãos calejadas dava a impressão de que se tratava de um boxeador;constituição física construída e acabadano manejo do machado e da foice, derrubando braúna, carrasco e marmeleiro de litro, fazendo broca para plantio,antes das primeiras chuvas; no cabo da enxada, “puxando cobra pus pés” e carregando caçoar de milho nas costas; jogando cangalha de albardo encima de lombo de burro. Essa foi a academia de musculação que seu Peu frequentou, como homem do campo, sendo seu exercício físico predileto o trabalho.
Seu Peu acordava muito cedo, quatro da manhã, para enfrentar a luta do gado: arriar bezerro, tirar leite esoltar o gado no pasto. Nesse domingo acordou as três da madrugada, alguém batia na porta da varanda, baixinho chamava pelo seu nome:
– Seu Peu, seu Peu!
– Da camarinha, sentado na cama, respondeu: pois não, aguarde um pouco que vou chegando!
– Do lado de fora uma voz atendeu: obrigado major.
O dono da casa, esperto, estranhou: – não é gente conhecida, isso pode ser arrumação de cigano, pensou.
Ao terminar de vestir o terno de mescla azul, de puro algodão, feito pela esposa, na máquina de costura demão, antiga;com as mãos em concha arrumou os cabelos e se dirigiu a porta principal.A porta de braúna, pesada, dividida em duas partes para que as fechaduras, feitas pelo ferreiro Raimundo Cipriano, em Mauriti, suportasse o peso da madeira. Abriu a parte superior, deu bom dia, passou os olhos na área externa, viu que os visitantes estavam com armas encostadas na parede. Não recuou.
-Vamos entrar e merendar, a mulher já aprontou o que comer. Redarguiu – Ninguém sai de minha casa com fome.
Um dos visitantes foi direto ao assunto: – Queremos dinheiro, major Peu; era o sujeito branco atarracado, de olhos claros.
– Já me conhece, como é sua graça? – Zé de Dó, respondeu o bandido.
Matutou consigo mesmo: – já ouvi esse nome. Lembrou: –Moacir Cartaxo, em conversa adiantou, horrorizado que um tal de Zé de Dó matara um deficiente na cidade de Diamante, Paraíba. O major Moacir sabia, pois tinha uma fazenda nesse município. Enquanto puxava pela memória, estuda os dois sujeitos.Foi peremptório:
– Seu Zé de Dó, tratamento que dispensava aos desconhecidos, só sai com dinheiro da minha casa quem trabalha nas minhas roças, coisa que uso pouco, pois tenho dezessete “fios home”.
Zé de Dó deu um passo atras, mas seu Peu com a roçadeira na mão, os olhos azuis fixado no facínora, repetiu o convite:
– Entre para comer: tomar leite, café, queijo feito pela minha “muié”, um carneirinho assado, que matei “onte”. Observou: – têm posada, mas dinheiro daqui não levam não.
– Escutaram bem o que eu disse? O parceiro de Zé de Dó obtemperou: – somos de paz major. O dono da casou fixou os olhos azuis em Dandó, – eu já lhe vi, você era um bom tocador de burro; o ex-almocreve,puxoupela memória e lembrou que já trouxera um comboio de burros carregados de sal da cidade de Mossoró,Rio Grande do Norte, para entregar na Carnaúba, no mesmo casarão que agora lhe dava abrigo.Dandó, por muito tempo, foi tropeiro em Mauriti, tangia burro, pegando frente de cidade em cidade.
– Pois bem, a conversa tá boa, observou seu Peu, mas vamos entrar para matar a fome. Os dois homens se entre olharam, Dandó, disfarçadamente, deu sinal para o seu par que o agropecuarista, homem de atitudes rígidas, ensimesmado e cauteloso, era de pouca conversa; os dois o acompanharam até a mesa, mas antes Seu Peu aconselhou a deixarem as armas pelo lado de dentro da janela, explicou – aqui tem criança.
Sentaram à mesa farta, em torno da qual se distribuíam os filhos do fazendeiro; o silêncio dominava o ambiente, quebrado pelo canto da cigarra na aroeira do quintal; antes de concluírem a merenda o barulho de carro quebroua calmaria da capoeira.
– Um dos filhos avisou: carro com polícia!
Os dois bandidos pegaram suas armas saíram pela porta dos fundos, ganhara a folha. Dona Celestina recolheu os pratos dos visitantes, ordenou aos filhos que permanecessem à mesa como nada estivesse acontecido.
Uma voz ecoou de casarão a dentro: – Peu? Era o delegado, dois soldados e o guarda noturno. Seu Peu foi atender, mandou que entrassem para o café da manhã, sentem vamos comer alguma coisa, adiantou o fazendeiro. Os policiais guardaram as armas, sentaram à mesa para matar a fome de uma noite indormida.
Seu Peu, indagou: – o que traz os senhores por essas bandas? – Tão cedo!
O delegadodesfiou a conversa – ontem para as bandas do Sítio Cruzinha cometeram dois crimes: – assalto à casa de seu Marco e atacaram, com morte, a casa de Celerino Leite; continuou – eram dois bandidos: um moreno alto e um brancoso, forte, atarracado, conhecido por Zé de Dó, das bandas da Paraíba; já tem três crimes nos costados: matou um deficiente em Diamante, a morte de Pedro Rosa das bandas do Ceará, agora no Sítio Cruzinha o assassinato de um dos Loriano.
– Estamos no ratro deles, se aparecerem por aqui mande nos avisar.Agradeceram a gentileza pelo lanche reforçado, pegaram o jipe e ganharam a estrada.
Dona Celestina observou: – mas Peu, você não falou nada sobre aqueles “home”? Não, eles não me perguntaram nada sobre aquelas pessoas, mas se aparecerem por aqui eu mando avisar ao delegado; – foi o que ele mepediu.Adiantou – Celestina: – “canário na muda não canta, né”, e deu em busca da cozinha.
O filho mais velho, ainda preocupado, com a conversa dura do pai com os bandidos, indagou: – mais pai os “home tava” armados e eram perigosos. – Menino, “cachorro que engole osso sabe a medida da goela”, colocou o chapéu de coro na cabeça, franziu ocenho, pegou a roçadeira e o caminho da roça.
O silêncio voltou a dominar o casarão da Carnaúba, seu Peu voltou a rotina, seguiu com os filhos para o trabalho, dá um jeito em um plantio de cana-de-açúcar que estava murchando por falta de chuva. Alguém resmungou: no domingo; – as plantas e os animais não sabem o que é domingo, segunda ou feriado. Encerrou a conversa.

Mário Thomás
Articulista do Espaço Buriti